Sem Comentários (Segunda Edição)



UMA PIRUETA, DUAS PIRUETAS. BRAVO, BRAVO!
Lucas Limberti

O circo chegou.
Explode alegria, corre a criança, a cidade em polvorosa ouve o desfile:
– Atenção comunidade chegou o maior espetáculo da terra!!
Saltos, mágicas e palhaçadas.
O povo sorri com o coração cheio de vida vendo o desfile. Estouram foguetes, sobem balões, passam elefantes e mulheres barbadas. Na frente de todos está ele, o grande palhaço, o malandro inocente, o triste maquiado de alegria.
Alvoroçados, todos correram para as bilheterias, lotaram o espetáculo, compraram pipocas doces e salgadas e, até o fim do espetáculo, esqueceram-se da dor de ser o que eram.
Passou a temporada. A magia do circo é um sopro. Quem viu viu, quem não viu que junte seus pacotes e corra atrás da trupe.
O choro da criança alarmou, mas aos poucos cessou.
Neste farfalhar de emoções, esqueceram de avisar o palhaço da partida. Com a lona ainda montada ele foi, como deveria ser, pra sina de sua cena. Sorriu melancólico.
A maquiagem do palhaço só vale no palco; sentado no camarim ele se despede da tristeza. Afasta-se do pó e empunha seu violino para cena de seu dom e de seu tom. Mal sabe ele que hoje a plateia não vem. O circo fechou, a trupe se arrancou. E mesmo assim o palhaço apresentou-se como se aquela fosse a última vez que pisasse um picadeiro.
Após o espetáculo, sem palmas, sem risos, na companhia dos grilos o palhaço sacou um revólver da cartola colorida. Empunhou contra o centro de seu pensamento.
Disparou. Sem a magia do aplauso o místico som do disparo explodiu sua alegria.
O circo se foi.

Lembrar para esquecer

Na praia, a árvore aparenta ecoar o poema.
MODINHA
Cecília Meireles

Tuas palavras antigas
deixei-as todas, deixei-as,
junto com as minhas cantigas,
desenhadas nas areias.

Tantos sóis e tantas luas 
brilharam sobre essas linhas,
das cantigas — que eram tuas —
das palavras — que eram minhas!

O mar, de língua sonora,
sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora:
que o resto é pouco e apagado.

* * * * * * * 
“Esquecer para lembrar”, eis uma sentença paradoxal de Drummond, — aliás, título de um livro seu. Há, porém, quem busque lembrar para esquecer. Parece ser esse “lembrar para esquecer”, na passagem do tempo, a essência dessa bela canção de Cecília Meireles. Leiamos tais versos.
O primeiro verso nos revela um possível diálogo (“tuas”, pronome possessivo de segunda pessoa). As palavras, “antigas” (adjetivo que já aponta para a temporalidade do momento lembrado), foram deixadas, junto com as cantigas do eu lírico, desenhadas nas areias. Aqui já há uma alusão ao espaço marítimo de puros contrastes encarnando o Tempo e a Eternidade (areias — ruínas do tempo destruidor; mar — uma grandeza da eternidade renovadora).
Palavras compõem o ritmo das cantigas; cantigas seguem o ritmo das palavras. Assim, “minhas” palavras são cantigas; “tuas” cantigas são palavras. Confundem-se, iluminadas, as linhas que resistem aos dias (“tantos sóis”) e às noites (“tantas luas”); que, enfim, resistem à passagem do tempo (portanto dias e noites são parte de um todo, um todo que é essa passagem: metonímia). Mas a resistência não parece duradoura…
Notemos, para a leitura correta dessa resistência não duradoura, alguns detalhes importantes. Um é que, nas duas primeiras estrofes, predominam os verbos em tempo passado (“deixei”, “brilharam”, “eram”); já na terceira estrofe predominam os verbos em tempo presente (“sabe”, “canta”, “vai”, “é”). Outro detalhe, na terceira estrofe, é o desaparecimento da segunda pessoa com quem dialogava o eu lírico. Tais detalhes reforçam a ideia de algo que se perdeu nessa passagem do tempo…
O mar, de língua sonora (imagem humanizada da onda) sabe o presente e o passado (pois é uma grandeza da Eternidade). O eu lírico, solitário, pede para que o mar cante apenas o que é dele, — pois o resto é apenas fantasma de uma lembrança vivida. Lembrar para esquecer.

Vozes sublimes da melancolia — ou interpretações grotescas da verdade…

Pintura em ânfora grega, representando Ulisses tentado pelas sereias, 490 a. C.
AS SEREIAS
Franz Kafka/ tradução de Geir Campos

São as sedutoras vozes da noite: também assim cantavam as Sereias… Não fora de justiça, para com elas, atribuir-lhes o deliberado propósito de seduzir: elas bem sabiam que possuíam garras e nenhum seio fértil, e disso lamentavam-se em altas vozes — mas não tinham culpa de soarem tão belos os lamen­tos.

* * * * * * *
Doce veneno o canto das sereias… Assim como a noite que, mesmo assustando ao ho­mem, o fascina com sua voz (embora a noite não tenha voz, mas estrelas rebentadas em ternura), as sereias também sabiam seduzir, cantando, a quem se aventurava em azul beleza do imenso mar… A vivacidade do texto kafkiano está em rememorar o passado vivenciando o presente, em explosão de lirismo e mística tristeza…
Para quem não sabe, as sereias da Mitologia Grega (as sereias a quem se refere Kafka) eram monstros horripilantes, filhas do rio Achelous e da musa Terpsícore (musa da música, das nove do Olimpo). Possuíam garras e grandes asas (em A odisseia, epopeia que narra as aventuras e desventuras de Ulisses/ Odysseus, aventuras de que faz parte “o canto da sereias”), — embora cantassem docemente, atraindo marinheiros que se afogavam atirando-se ao mar para amá-las…
Aqui Kafka parece absolvê-las da injustiça dos homens. Para ele, elas lamentavam a falta de beleza corporal e, portanto, cantavam sem culpa de a voz ter alma transbordante de vivaz ma­gia. E o canto encanta. Assim como a poesia que, para Edgar Allan Poe, deve ter o timbre de la­mento (de melancolia) para atingir/ seduzir ao leitor, o canto — encanto — também deve ser belamente melancólico… A tristeza embeleza a alma…

A presença de quem se faz ausente: Fernando Pessoa

CASTAGNETO, Porto do Rio de Janeiro, 1884.
[Ó NAUS FELIZES…] 
Fernando Pessoa

Ó naus felizes, que do mar vago
Volveis enfim ao silêncio do porto
Depois de tanto noturno mal —
Meu coração é um morto lago,
E à margem triste do lago morto
Sonha um castelo medieval…

E nesse, onde sonha, castelo triste,
Nem sabe saber a, de mãos formosas
Sem gesto ou cor, triste castelã
Que um porto além rumoroso existe,
Donde as naus negras e silenciosas
Se partem quando é no mar manhã…

Nem sequer sabe que há o, onde sonha,
Castelo triste… Seu spírito monge
Para nada externo é perto e real…
E enquanto ela assim se esquece, tristonha,
Regressam, velas no mar ao longe,
As naus ao porto medieval…

* * * * * * *
Poema estranho de complexa sintaxe, ainda que lindo na simplicidade da narrativa. Percebe-se nele algo característico não só da poesia pessoana, mas também de uma muito praticada vertente da poesia moderna: a presença, sentida pelo leitor-viajante, de um eu lírico que se faz ausente (“Meu coração é um morto lago/ E à margem triste do lago morto/ Sonha um castelo medieval…”, versos de pura arte do estranhamento…). Ainda que o coração do eu lírico seja um lago morto (morte: ausência), esse “lago morto” tem a noção exata de sonhar, à sua margem, (espaço também do coração) um castelo medieval (sonhar: vivacidade, presença de espírito). Ao sonhar o castelo, o coração ocupa o espaço dele, espaço onde se encontra uma triste castelã de belas mãos (ocupante do castelo) que ignora a existência de um porto, de onde partem naus (navios) ao amanhecer — naus que atravessam a escuridão maligna dos mares…
Não só ignora a existência de outras naus, mas também ignora a existência do próprio espaço em que se encontra, espaço onde sonha o coração, que o imaginara à margem do lago morto, lago morto que é o coração… Castelã que se esquece, estando triste, enquanto naus de existência ignorada por ela regressam ao porto medieval.
Atentemos agora para a sintaxe: notemos que o pronome demonstrativo “[n]esse” está separado do substantivo “castelo” (algo incomum na língua portuguesa). Tal procedimento ocorre outras vezes (versos oito e nove, treze e quatorze). Pausas forçadas feitas por vírgulas e reticências, exigindo quase total silêncio (palavra cuja ideia aparece, consideravelmente, no poema), o coração, contudo, se transborda em beleza de imaginação pura — um coração que se faz ausente na presença do leitor…
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A versão deste poema é uma cópia cedida por Fernando Pessoa, em 1912, a Luís de Montalvor. Há outra versão, com o título "Sonho", datada em 10 de junho de 1910.

Pavorosa aceitação do silencioso mundo... Kafka!


PEQUENA FÁBULA
Franz Kafka/ tradução de Modesto Carone

“Ah”, disse o rato, “o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.” — “Você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o.

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Tão vasto o mundo… muitas possibilidades de vivê-lo… mas… como vivê-lo? A resposta parece angustiante, e — talvez — inalcançável. Para Kafka, ela nem existe ou, se existe, assim como a esperança, não existe para o Homem: “há esperança, mas não para nós”.
O ratinho da fábula, portanto, é o Homem; as paredes, a Razão. Expliquemos, antes que o leitor entenda erradamente a conclusão do raciocínio já exposta. A Razão ajuda a delimitar, até um certo ponto, os nossos atos de vida; inspira confiança. Contudo a vida (eis a nossa descoberta!) já é delimitada por forças incompreensíveis. Assim, a Razão não é mais que a compreensão dessas forças (paradoxal verdade!). O ratinho parece saber a direção de seu caminho: a ratoeira (ratoeira — possível morte).
O gato é o mistério — o sem sentido, o absurdo, o inexplicável — na narrativa (para os místicos, já é um animal misterioso por natureza). Aconselha o rato a mudar de direção, sem, contudo, dar a ele a oportunidade de mudar. Talvez o rato já tivesse tido, sem saber, essa oportunidade; talvez o gato tivesse ironicamente justificado o seu conselho devorando o rato (garantindo, aliás, a sua alimentação e, estranhamente, cumprindo o seu instinto de sobrevivência). No universo kafkiano, portanto, nada é explicável; tudo é, em silêncio, imenso e assustador… Não há resposta… E nunca haverá… “O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora” (Pascal).
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Mais tarde haverá outra análise desse conto, escrita por Modesto Carone.