O Psiquiatra: uma leitura de "O alienista"

Eis aí uma bela leitura do clássico conto-novela de Machado de Assis: O Alienista.

Leitura expressionista de "Morte e vida severina"

Tempos atrás havíamos postado a análise de um trecho de Morte e vida severina, obra de João Cabral de Melo Neto. Vale a pena assistir a este vídeo, considerando a adaptação belamente realizada pela Rede Lobo? Sim, pois o vídeo revela a triste realidade em nuanças expressionistas que impactam o espectador.


Comissão da verdade já! (Vala de Perus)


VALA DE PERUS
Edson Luís de Almeida Teles
(Da página virtual Desaparecidos políticos)

Em 1990, no dia 4 de setembro, foi aberta a vala de Perus, localizada no cemitério Dom Bosco, na periferia da cidade de São Paulo. Lá foram encontradas 1.049 ossadas de indigentes, presos políticos e vítimas dos esquadrões da morte. Seis presos políticos deveriam estar enterrados nesta vala, de acordo com os registros do cemitério: Dênis Antônio Casemiro, Dimas Casemiro, Flávio Carvalho Molina, Francisco José de Oliveira, Frederico Eduardo Mayr e Grenaldo de Jesus da Silva.
O cemitério Dom Bosco foi construído pela prefeitura de São Paulo, em 1971, na gestão de Paulo Maluf e, no início, recebia cadáveres de pessoas não identificadas, indigentes e vítimas da repressão política. Fazia parte de seu projeto original a implantação de um crematório, o que causou estranheza e suspeitas até da empreiteira chamada a construí-lo. Este projeto de cremação dos cadáveres de indigentes, do qual só se tem notícia através da memória dos sepultadores, foi abandonado em 1976. As ossadas exumadas em 1975 foram amontoadas no velório do cemitério e, em 1976, enterradas numa vala clandestina.
A família dos irmãos Iuri e Alex de Paula Xavier Pereira, após diversas tentativas para encontrar seus restos mortais em cemitérios da cidade de São Paulo, descobriu que Iuri estava enterrado no cemitério de Perus, quando do enterro de um tio seu neste mesmo cemitério em dezembro de 1973. Passado algum tempo, a família mostrou ao administrador do cemitério a notícia de jornal onde estava relatada a morte de Alex e indicava o nome falso utilizado por ele durante a clandestinidade, João Maria de Freitas. Assim, o administrador encontrou nos livros de registro do cemitério uma pessoa enterrada com aquele nome. Essa descoberta despertou os familiares para a utilização de identidade falsa para o sepultamento de militantes políticos assassinados.
Em junho de 1979, a irmã de Iuri e Alex, Iara Xavier Pereira, relatou essas informações aos familiares de mortos e desaparecidos políticos reunidos no III Encontro Nacional dos Movimentos de Anistia, no Rio de Janeiro. Ainda no mês de junho, alguns familiares foram ao cemitério de Perus e localizaram outros militantes mortos e enterrados sob identidade falsa como Gelson Reicher, enterrado com o nome de Emiliano Sessa, e Luís Eurico Tejera Lisbôa, enterrado como Nelson Bueno. Esses novos dados levaram outros familiares a iniciarem suas buscas em cemitérios a partir dos nomes falsos utilizados por seus parentes na clandestinidade.
Em julho de 1979, a família de Flávio Carvalho Molina, assassinado em 7 de novembro de 1971, soube de sua morte através de documentos anexados a um processo na 2ª Auditoria da Marinha, sem no entanto, jamais ter recebido alguma comunicação, mesmo que informal. Na documentação, a Auditoria é informada da morte de Flávio, cujo corpo havia sido enterrado como indigente no cemitério Dom Bosco, em Perus, com o nome falso de Álvaro Lopes Peralta, na cova n. 14, rua 11, quadra 2, gleba 1 e registro n. 3.054. Seus familiares tentaram exumar seus restos mortais, quando descobriram que os mesmos já haviam sido exumados em 1975 e reinumados em uma vala comum. Naquela ocasião, nada pôde ser feito devido à repressão política vigente no país.
Em 1990, o repórter Caco Barcellos, investigando a violência policial através de laudos necroscópicos do Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo, redescobre a vala clandestina e tal acontecimento alcança grande repercussão na imprensa. Em seguida, os familiares dos mortos e desaparecidos políticos obtêm o apoio da prefeita Luiza Erundina, que criou a Comissão Especial de Investigação das Ossadas de Perus.
Os familiares exigiram a transferência das ossadas para o Departamento de Medicina Legal da UNICAMP, pois no IML/SP ainda atuavam médicos legistas que assinaram laudos falsos de presos políticos mortos em tortura. O diretor do IML, nessa época, Dr. José Antônio de Melo, assinou o laudo necroscópico de Manoel Fiel Filho, assassinado sob tortura no dia 16 de janeiro de 1976, no DOI-CODI/II Exército. Os familiares, o Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV), a Anistia Internacional e a Americas Watch convidaram o Dr. Clyde Collins Snow e a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) para colaborarem com o Departamento de Medicina Legal da UNICAMP na catalogação e identificação das ossadas encontradas na vala de Perus. No entanto, não puderam trabalhar nas pesquisas de identificação, pois a equipe de medicina legal da universidade não concordou com sua participação.
Entre 17 de setembro de 1990 e maio de 1991 instalou-se na Câmara Municipal de São Paulo uma CPI para investigar as irregularidades da vala de Perus. Em novembro de 1990 foi assinado o Convênio entre o Estado, a Prefeitura de São Paulo e a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), por um período de 1 ano, com o objetivo de identificar as ossadas. Neste período iniciou-se, também, o Inquérito Policial n. 10/90, na Seccional Oeste, presidido pelo Dr. Jair Cesário da Silva para apurar as responsabilidades pelo uso da vala clandestina. Em dezembro de 1990, as ossadas devidamente catalogadas e embaladas foram transferidas para o DML/UNICAMP. Até o final de 1992 obteve-se duas identificações de presos políticos cujos restos mortais estavam na vala clandestina: Dênis Antônio Casemiro, considerado desaparecido, e Frederico Eduardo Mayr.
O trabalho da Comissão Especial de Investigação das Ossadas de Perus e da CPI estenderam seus trabalhos a todos os cemitérios da capital ou cidades vizinhas. Assim, outras ossadas foram encaminhadas ao DML/UNICAMP para investigação com fins de identificação. Do cemitério de Perus três esqueletos de covas individuais foram identificados como sendo os de Hélber José Gomes Goulart, Antônio Carlos Bicalho Lana e Sônia Maria de Moraes Angel Jones. No mesmo cemitério, os esqueletos da cova onde estaria enterrado Hiroaki Torigoe e os de outra cova onde estaria Luís José da Cunha foram retirados e enviados para o DML/UNICAMP. Até hoje, nenhum resultado sobre a investigação foi divulgado.
Do Cemitério de Campo Grande, em São Paulo, identificou-se a ossada de Emanuel Bezerra dos Santos. Comprovou-se que José Maria Ferreira Araújo, morto em São Paulo, em 23 de setembro de 1970, foi sepultado no cemitério de Vila Formosa. Porém, mudanças na disposição de algumas quadras do mesmo impossibilitaram a localização dos restos mortais de José Maria. Algumas ossadas desse cemitério foram transferidas para a UNICAMP e, segundo seu Departamento de Medicina Legal, já teriam sido devolvidas ao cemitério, sem contudo, divulgar qualquer relatório a respeito.
Em 29 de abril de 1991 foram trazidos do cemitério de Xambioá, sul do Pará, dois esqueletos de supostos guerrilheiros do Araguaia. Um pertenceria a Francisco Manoel Chaves e o outro a Maria Lúcia Petit da Silva. Apenas o laudo de identificação de Maria Lúcia Petit da Silva foi entregue à família em 15 de maio de 1996. Às demais famílias foram entregues cópias de laudos de identificação em papel sem timbre da universidade e sem assinatura.
A partir de 1993, com o término do mandato da prefeita Luiza Erundina, nenhum informe oficial sobre as investigações das ossadas foi transmitido. Apesar das dificuldades para se chegar ao término das identificações, no local onde se encontrava a vala foi erguido um memorial de autoria do arquiteto Ricardo Ohtake, inaugurado em 26 de agosto de 1993.
Em 17 de maio de 1995 realizou-se reunião para se exigir a prestação de contas a respeito da pesquisa com finalidade de identificar as ossadas de Perus e demais cemitérios. Soube-se, então, que fragmentos ósseos dos seis militantes mortos, já identificados pelo DML, haviam sido encaminhados para a Alemanha. Enviaram também fragmentos ósseos de esqueletos não identificados à Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, para a extração de DNA. Estabeleceu-se a criação de uma Comissão para garantir a transparência dos trabalhos de investigação do DML. Afiançou-se que as ossadas seriam devolvidas ao cemitério de Perus somente após o término das pesquisas e em condições previamente acertadas com os familiares e, mais uma vez, o DML comprometeu-se a enviar relatório detalhado a respeito da investigação realizada.
Após um ano sem resposta da UNICAMP, os familiares, através da interferência do Secretário da Justiça do Estado de São Paulo Belisário dos Santos Jr., reuniram-se com o reitor daquela universidade José Martins Filho, o Secretário Adjunto da Secretaria da Segurança Pública, Luiz Antônio Alves de Souza, os deputados estaduais Renato Simões e Wagner Lino e Suzana Lisbôa, representante da Comissão Especial de Reconhecimento dos Mortos e Desaparecidos. Decidiu-se pelo afastamento do Dr. Badan Palhares do processo de investigação das ossadas de Perus; o envio de médicos legistas da Secretaria de Segurança para acompanharem a investigação; a participação de perito internacional como observador; o envio de questionário elaborado pelos familiares com todas as dúvidas a serem explicadas pela reitoria. Badan Palhares foi substituído por José Eduardo Bueno Zappa, e o médico legista Carlos Delmonte foi encaminhado pela Secretaria da Segurança Pública para o DML/UNICAMP. As respostas fornecidas através da Procuradoria Geral da UNICAMP foram evasivas e contraditórias.
Em abril de 1997 os familiares receberam cópias do relatório “Projeto Perus” assinado pelo Dr. Zappa e do ofício do Dr. Carlos Belmonte. Tanto o relatório (primeiro documento oficial do DML/UNICAMP a respeito das ossadas) quanto o ofício do médico legista da Secretaria de Segurança foram evasivos e dedicados a elogiar o Departamento de Medicina Legal.
Em fevereiro de 1998 foi criada uma Comissão Especial para sugerir as providências necessárias à conclusão dos trabalhos de identificação dos mortos e desaparecidos políticos, presidida pelo médico legista Dr. Antenor Chicarino e composta por familiares e representantes das Secretarias da Cultura e da Justiça do Estado de São Paulo. A Comissão, após realizar vistoria nas dependências do DML/UNICAMP, constatou a precariedade do acondicionamento das ossadas e o comprometimento das investigações, pois estas estavam em sacos abertos e sem identificação jogados ao chão sujo de lama, devido à inundação que atingiu o prédio, e com pesados móveis sobre os mesmos. Diante dessa situação, a Comissão indicou a transferência das ossadas para o Instituto Oscar Freire do Departamento de Medicina Legal da USP e a participação de perito internacional como observador, e que tal transferência somente fosse realizada após minuciosa averiguação da real situação das ossadas, quando se estabeleceria um prazo para o término das investigações.
O relatório da Comissão Especial contendo as propostas acima mencionadas foram entregues aos Secretários da Justiça e da Segurança Pública em abril de 1998, sem contudo, receber qualquer resposta das autoridades. Em março de 1999, membros da Comissão Especial extinta realizaram reunião com o atual Secretário da Segurança Pública do Estado de São Paulo, Marco Vinícius Petroluzzi, o qual comprometeu-se a responder às soluções propostas em abril de 1998.
Em 31 de março de 1999, a família de Flávio Carvalho Molina propôs Medida Cautelar Incidental com pedido de concessão de liminar para produção de prova, afim de instruir a Ação de Ressarcimento de Danos proposta em 1992 “() no sentido de determinar a imediata perícia ─ exame de DNA nas ossadas que restam na UNICAMP, possivelmente, nos grupos I ou II (inicialmente chamados amostra Camp ─ 1), conforme relatório “Projeto Perus”, fls. 21, mais precisamente as que receberam os números 240 e 57 (fls. 25) ()” para identificação de seus restos mortais. A ação solicita que caso a UNICAMP não possa realizar tal prova pericial, que as ossadas sejam transferidas para local seguro onde se realize o exame necessário.
Outras valas clandestinas foram abertas. No Rio de Janeiro, em 16 de setembro de 1991, o Grupo Tortura Nunca Mais obteve apoio para exumar 2.100 ossadas de uma vala no cemitério de Ricardo de Albuquerque. Os corpos de mortos e desaparecidos foram enterrados em uma cova rasa e cinco anos depois transferidas para o ossário geral. No início da década de 80 enterraram em uma vala clandestina todos os ossos de pessoas sepultadas como indigentes desde 1971 até 16 de janeiro de 1974.
Reuniu-se, então, uma equipe formada por dois médicos legistas indicados pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (CREMERJ), Gilson Souza Lima e Maria Cristina Menezes, a arqueóloga e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Nancy Vieira, e a antropóloga e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Eliane Catarino. Em outubro de 1991, a Equipe Argentina de Antropologia Forense representada por Luis Fondebrider, Mercedes Doretti e Silvana Turner realizou um treinamento técnico com a equipe e orientou os trabalhos de catalogação dos ossos. Infelizmente, as ossadas quando transferidas do ossário geral para a vala foram misturadas, formando um conjunto de cerca de 430 mil ossos, entre os quais não se distingue um esqueleto completo. Mesmo assim, vários crânios e outros ossos foram retirados e acondicionados em 17 sacos plásticos para serem examinados.
Em março de 1993, a equipe encerrou o trabalho devido à falta de financiamento e à impossibilidade de sustentá-lo com apenas três pessoas. As ossadas catalogadas foram guardadas no Hospital Geral de Bonsucesso. O local da vala continua sendo resguardado, onde no futuro pretende-se construir um Memorial. Os nomes dos 14 presos políticos enterrados nesta vala são: Ramires Maranhão do Vale e Vitorino Alves Moitinho, ambos desaparecidos; José Bartolomeu Rodrigues da Costa, José Silton Pinheiro, Ranúsia Alves Rodrigues, Almir Custódio de Lima, Getúlio de Oliveira Cabral, José Gomes Teixeira, José Raimundo da Costa, Lourdes Maria Wanderley Pontes, Wilton Ferreira, Mário de Souza Prata e Luís Guilhardini. Outros dois militantes foram sepultados em valas comuns no Rio de Janeiro: no cemitério de Cacuia está Severino Viana Colon e no de Santa Cruz, Roberto Cieto.
No cemitério de Santo Amaro, em Recife (PE), os despojos dos mortos da “Chacina da Chácara São Bento” foram enterrados em uma vala clandestina. Em 1973, o delegado da polícia paulista Sérgio Paranhos Fleury, orientado pelo cabo Anselmo, organizou a ação policial que matou militantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) em suposto tiroteio naquela chácara. As pesquisas realizadas na Comissão Especial de Reconhecimento dos Mortos e Desaparecidos Políticos instituída pela Lei 9.140/95, comprovam que todos foram presos e torturados antes de serem levados para a chácara São Bento. Não foi possível realizar as investigações nessa vala, pois as ossadas não foram separadas em sacos plásticos, o que torna inviável os trabalhos de identificação. Estão enterrados na vala do cemitério de Santo Amaro: Eudaldo Gomes da Silva, Evaldo Luís Ferreira de Souza, Jarbas Pereira Marques, Pauline Reichtul e Soledad Barret Viedma. A esposa de José Manoel da Silva conseguiu resgatar seu corpo antes que fosse transferido para a vala clandestina, mas somente em março de 1995 pode enterrá-lo em sua cidade natal.

Sobre as mulheres


O pequeno documentário aqui apresentado demonstra qual o papel da mulher no mundo capitalista (leia-se “capetalista”). É interessante analisar como o discurso ideológico, nas palavras que evoco de K. Marx, mascara a real organização da sociedade.

Entre rios (e discursos da vanguarda conservadora)


Eis aí um belíssimo documentário, que nos revela não só a arquitetura da cidade de S. Paulo, mas também os discursos da modernidade conservadora.
Eis a sinopse acerca do documentário, elaborada pelos idealizadores:

Entre Rios conta a história de São Paulo, e como ela está totalmente ligada aos seus rios. Muitas vezes, no dia a dia frenético de quem vive [em] São Paulo, eles passam despercebidos e só se mostram quando chove e a cidade para. Mas não sinta vergonha se você não sabe onde se encontram esses rios! Não é sua culpa! Alguns foram escondidos de nossa vista e outros vemos só de passagem, mas quando o trânsito para nas marginais podemos apreciar seu fedor. É triste mas a cidade está viva e ainda pode mudar!
O video foi realizado em 2009 como trabalho de conclusão de Caio Silva Ferraz, Luana de Abreu e Joana Scarpelini no curso em Bacharelado em Audiovisual no SENAC-SP, mas contou com a colaboração de várias pessoas a que temos muito a agradecer.
(Mais informações: http://asmargensdoprogresso.wordpress.com/)

Direção:
Caio Silva Ferraz

Produção:
Joana Scarpelini

Edição:
Luana de Abreu

Animações:
Lucas Barreto
Peter Pires Kogl
Heitor Missias
Luis Augusto Corrêa
Gabriel Manussakis
Heloísa Kato
Luana Abreu

Câmera:
Paulo Plá
Robert Nakabayashi
Tomas Viana
Gabriel Correia
Danilo Mantovani
Marcos Bruvic

Trilha Sonora:
Aécio de Souza
Mauricio de Oliveira
Luiz Romero Lacerda

Locução:
Caio Silva Ferraz

Edição de Som:
Aécio de Souza

Orientadores:
Nanci Barbosa
Flavio Brito

Orientador de Pesquisa:
Helena Werneck

Entrevistados:
Alexandre Delijaicov
Antônio Cláudio Moreira Lima e Moreira
Nestor Goulart Reis Filho
Odette Seabra
Marco Antonio Sávio
Mario Thadeu Leme de Barros
José Soares da Silva

A lucidez de Antonio Candido: Análise dos anos 1930


É gratificante ver Antonio Candido trazer detalhes de um período de mudanças no Brasil da Era Vargas (1930-1945), analisando de perto as nuanças da obra de Graciliano Ramos.

Presença viva da morte: Dois poemas em análise

Capela dos Ossos, Évora/ Portugal. Tal monumento lembra-nos da transitoriedade da vida.
UMA IDEIA FIXA

REDUNDÂNCIAS
Ferreira Gullar

Ter medo da morte
é coisa dos vivos
o morto está livre
de tudo o que é vida

Ter apego ao mundo
é coisa dos vivos
para o morto não há
(não houve)
raios rios risos

E ninguém vive a morte
quer morto quer vivo
mera noção que existe
só enquanto existo

* * * * * * *
Esse poema de Ferreira Gullar (do livro Muitas vozes) é seco, direto, belamente reflexivo. A ideia de vida e morte aqui é simples e encantante, contudo redundante, repetitivo, como o próprio título do poema diz.
Para o eu lírico (a voz fictícia do poema), só quem vive tem a ideia fixa da morte; quem está morto não tem noção do próprio estado em que se encontra, estado de puro nada. Basta ler os primeiros versos para assim entendermos. 
Para o morto, em seu estado atual (redundante escrita!), não há r(a)ios (metonímia: tempestades — metáfora de tristezas e obstáculos), rios (metáfora das travessias da vida reveladas nas passagens do Tempo), e ri(s)os (metáfora das alegrias). Em verdade, para o morto nem o passado existe (oitavo verso: “não houve”/ não existiu). A repetição sonora da consoante /R/ (nono verso: “raios rios risos”), sem a pausa forçada das vírgulas, dá a impressão de passagem veloz das imagens da vida — imagens condenadas ao nada.
Contudo, estando ou vivo, ou morto (contraposição de termos opostos — antítese), ninguém vive a morte em si (eis um paradoxo belamente simples). O vivo não sabe o que é, de fato, a morte, e o morto não sabe que está morto (e nem tem consciência desse não saber…): a noção de morte só existe para quem está vivo. Bela contradição, e contradição da vida!…
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O DESEJO MORTAL DE QUEM VIVEU VERDADEIRAMENTE

MORTE
Murilo Mendes

É doce o pensamento da morte
Quando o corpo exausto de prazer ou de dor
Sofre os seus limites.
É doce o pensamento da morte

Quando o espírito enfraquecido pela revolta
Não se aplaca nem mesmo diante de Jesus.
Morte, suave música da morte,
Devolve-me ao sono inicial de antes do pecado.

Não quero os cantos celestes nem a palma da glória.
Talvez eu queira o nada absoluto:

(Até mesmo o pensamento da morte ainda é vida.)

* * * * * * *
Todos aqui se lembrarão de uma leitura analítico-interpretativa do poema “Redundâncias”, de Ferreira Gullar. Em tal poema notamos a descrição argumentativa da realidade em que se encontra o morto, — realidade, aliás, de que ele não tem noção, já que a ideia de morte pertence aos vivos. Em este poema de Murilo Mendes parece a morte ser a grande solução final (ainda que desconhecida) para o corpo que experimentara os extremos da vida (prazer/ dor).
Assim como a música, que tem o poder de acalmar a alma, a morte, para o eu lírico, tem o poder, por ele desejado, de devolver o ser a um estado de origem (o nada). A vida, assim podemos dizer, faz o espírito estar em pecado, em fraqueza — fraqueza consequência da revolta implacável.
O desejo do nada absoluto resulta da vida. Claro deixemos, o eu lírico não sabe exatamente se o seu desejo é possível, ou provável. Não quer ele a redenção (“Não quero os cantos celestes nem a palma da glória.”).
Buscando, portanto, o nada “puro”, não deseja nem o pensamento da morte, — pensamento que o revela vivo (ecoando aqui a célebre sentença de Descartes: “Penso, logo existo”). Um nada tão bem descrito por Ferreira Gullar em “Redundâncias”…

No silêncio vivo das antigas vozes

“E já não enfrentamos a morte, de sempre trazê-la conosco.”
Carlos Drummond de Andrade

… E os pássaros cantam o mel das melodias, e as flores perfuram o céu das almas, e as lágrimas fecundam a terra dos sonhos… E em nosso mundo há vozes que ainda perfuram o ar que respiramos; vozes que ainda se desenham — e silenciosamente!… — em nossa memória.
Não deve haver, contudo, desespero. Viver não é mais que um ensaiar para o sagrado do mistério, — o segredo da morte. E, mesmo assim, outros corpos surgirão, para sorrir e chorar, de estranhas sombras crepusculares; e viverão; e passarão…
E os pássaros…
Ainda que, neste momento, no silêncio vivo das antigas vozes?…
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COM OS MORTOS
Antero de Quental

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
Arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos…

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei: vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também.
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

Mística miséria

Desenho do cartaz Morte e vida severina, no TUCA, anos 60/ 70.
CEMITÉRIO PERNAMBUCANO
(Nossa Senhora da Luz)
João Cabral de Melo Neto

Nesta terra ninguém jaz,
pois também não jaz um rio
noutro rio, nem o mar
é cemitério de rios.

Nenhum dos mortos daqui
vem vestido de caixão.
Portanto, eles não se enterram,
são derramados no chão.

Vêm em redes de varandas
abertas ao sol e à chuva.
Trazem suas próprias moscas.
O chão lhes vai como luva.

Mortos ao ar-livre, que eram,
hoje à terra-livre estão.
São tão da terra que a terra
nem sente sua intrusão.

* * * * * * * 
A dura realidade, aqui descrita pelo poeta João Cabral, esconde um misticismo amargo e penoso; não há como deixar de reconhecer nuanças de uma passagem bíblica que lembra ao homem que ele é pó, e ao pó retornará (Gênesis 3, 19). A leitura dos últimos versos aponta para tal passagem; e, reforçando a leitura, o mar não é cemitério de rios por serem ambos — mar e rio — formados pela substância “água” (primeira estrofe).
O eu lírico (a voz fictícia do poema) está muito próximo da realidade descrita: as palavras “[n]esta” (pronome demonstrativo, do primeiro verso) e “[d]aqui” (advérbio de lugar, do quinto verso), por exemplo, exprimem essa proximidade, realçada pela predominância de verbos no tempo presente. Mas…
O amargo da realidade está em o eu lírico descrever a pobreza de quem é enterrado. Nenhum morto enterrado em tal cemitério tem direito a um enterro digno, a um caixão; nenhum, portanto, vem “vestido de caixão” (famoso “paletó de madeira” reescrito, e secamente, aqui). Já eram mortos ao ar-livre, muitos antes de morrerem… Basta ler, para comprovar o raciocínio, o verso treze, em que aparece um verbo (“eram”) no pretérito imperfeito — estado de vida inconcluso, contudo passado para quem vive em tempo presente.
Assim, conclusão de leitura, essa pobreza revela uma triste realidade “mística”: a morte apavora a todos, porém — e eis a conclusão — parece não garantir igualdade entre todos os homens…

Diário da Justiça vingativa

Um trecho de “Diário de um detento”, letra e música dos Racionais MCs:

Homem é homem
Mulher é mulher
Estuprador é diferente, né?

* * * * * * *
Eis a breve interpretação de Acauam Oliveira para o trecho exposto:

Esses versos criam uma estrutura poética de significação que, no mínimo, mataria de inveja o poeta João Cabral de Melo Neto (pelo grau de contundência). Mano Brown cria um sistema tautológico em que o Homem é plenamente coincidente consigo mesmo ─ o sujeito homem coincide com seu próprio objeto. A perfeição. Na sequência, a mulher também é perfeita em si mesma, e se estabelece a ordem básica do sistema humano: Homem ─ Mulher. A humanidade e o universo (desde a perspectiva do diário) estão perfeitamente organizados por um sistema de repetição de significantes.
E o estuprador? É o elemento que vem perturbar essa ordem cósmica que se cria. Ele não é apenas um outro, mas é a própria diferença. Estuprador é diferente. A lógica tautológica da coincidência “sujeito ─ objeto” é irremediavelmente rompido por um elemento que coincide com sua própria diferença. É simplesmente brilhante como solução poética.
Não é à toa que ele “[t]oma soco toda hora/ ajoelha e beija os pés/ e sangra até morrer na rua Dez”. Ele é o que não se pode enquadrar em nenhum sistema de ordenação racional.

A travessia da dor, e o encanto da paz

Raphael SANZIO, A alva Madona, c. 1510. (Cf. nota de rodapé).
NA MÃO DE DEUS
Antero de Quental

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva no colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

* * * * * * *
Nesse admirável soneto, o eu lírico diz estar livre do mundo das aparências. O coração descansou na mão direita de Deus e, assim, alcançou ao Nirvana. Para ter o coração o direito ao descanso puro e divino, o eu lírico desceu a escada estreita — e real — do castelo da Ilusão (Ilusão: fonte de sofrimento para quem conheceu a pura verdade, e a dor de sofrer em vão, — dor causada pela ilusão). Escada estreita — imagem ecoando aqui o caminho estreito que leva o verdadeiro crente ao “Reino de Deus” pregado por Cristo (Mateus 7, 13-14).
O mundo das aparências, da ilusão, como “as flores mortais” (belezas enganosas e passageiras) que enfeitam falsas verdades não duradouras (“A ignorância infantil, despojo vão”), é abandonado. É um mundo cuja forma é transitória (tempo) e imperfeita. O eu lírico, portanto, renuncia à ilusão, a esse mundo de “caminho largo” — da perdição, assim podemos dizer —, para alcançar a verdadeira paz.
Os últimos versos, de beleza inquietante, revelam em mística imagem a paz alcançada pelo coração. Como uma criança que a mãe protege — e ela, protegendo-a, atravessa, “sorrindo vagamente”, as dificuldades existentes nos caminhos da vida (“Selvas, mares, areias do deserto…”) — o poeta embala ao seu coração “liberto”, fazendo-o dormir na mão de Deus, e eternamente…
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O poema de Antero de Quental, em um certo momento de comparação, descreve uma criança protegida pela mãe que atravessa [s]elvas, mares, areias do deserto… (verso doze) — Eis o motivo da exposição desse quadro. Há no poema, para quem não sabe, uma referência sugestiva ao episódio da fuga da família de Cristo para o Egito (Cf. Mateus 2, 13-18).

A mudança em linguagem fotográfica

A bela representação do devir.
[MUDAM-SE OS TEMPOS…]
Luís de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

* * * * * * *
Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sem­pre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desa­finam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.” — a beleza que emana desse fragmento es­crito por Guimarães Rosa (do livro Grande sertão: veredas) não corresponde à reflexão leve­mente melancólica, porém sóbria, do soneto de Camões. Para o grande poeta português, embora tudo mude incorporando “novas qualidades”, tem o Homem, seguindo o raciocínio exposto, a consciência de que todas as novidades sejam diferentes — e talvez infelizmente — do esperado/ desejado (versos cinco e seis), por já ter vivido muitas experiências tristemente marcantes na memória (verso sete) e pouca (ou, talvez, nenhuma) sensação de prazer em alguns momentos (verso oito).
Essa reflexão lírica, logo, é realçada por estes pares que se opõem:  “mal” x “bem”, “verde manto” x “neve fria”, “choro” x “doce canto”. Aqui a mudança, refletindo-se na vontade humana (do poeta), é tão profunda e surpreendente, que nada muda como dantes mudava (versos treze e catorze); a oposição passado x futuro fica evidente, e ecoa alguns séculos depois neste verso de Fernando Pessoa: “E era sempre melhor o que passou.” (do poema “Natal”).
Portanto, lembra-nos Camões, tudo está sujeito a mudanças no tempo, causando, conse­quentemente, perplexidade em quem vive, e não encantamento — encantamento que se mani­festa, e belamente, nas palavras de Guimarães Rosa. Contudo a poesia — “doce canto” — foto­grafa essas transformações incessantes que, reveladas na consciência de mundo, provocam o Homem a buscar em lembranças e sonhos um sentido para a realidade que o cerca.

Fábula kafkiana sob o ponto de vista de Modesto Carone

Um desenho em homenagem a Edgar Allan Poe.
PEQUENA FÁBULA
Franz Kafka/ tradução de Modesto Carone


* * * * * * *
Trata-se de uma fábula porque nesse relato intervêm animais falantes. Mas não existe aqui ─ como é o caso da tradição das fábulas ─ uma moral explícita da história no final. A ausência dessa moral da história levou muitos intérpretes a não aceitarem que o caso é de fábula, embora o título seja esse, e sim de uma parábola, que apresenta a história como se ela estivesse ao lado de outra, com a qual estabelece relações de analogia.
Basicamente o texto é um monólogo do rato. O monólogo ─ sempre expressão do isolamento ─ começa com uma interjeição (Ah!). Essa interjeição, no entanto, é logo absorvida no relato de algo experimentado antes (o mundo era vasto, mais amplo que agora). A repetição da primeira pessoa (eu) e as expressões “medo” e “feliz”, que exprimem afetos e se contradizem mutuamente, provocam o leitor a algum tipo de participação. As experiências do rato são apresentadas como sendo ativas só uma vez: eu via. As demais são vividas passivamente: o mundo torna-se mais estreito, as paredes convergem uma para a outra, lá no canto fica a ratoeira. Tudo se passa como se o rato se visse num processo que corre com autonomia, naturalmente, sem intervenção do personagem narrador. O resto deve, assim, submeter-se à noção de que a sua situação é sem saída. O rato sempre foi movido ─ impulsionado ─ pelo medo; é isso que o faz correr para a frente, para o que é amplo e vasto e perder-se no que é necessariamente estreito.
O fecho lacônico da peça tem uma precisão lógica que não é necessariamente cínica, e aparece sob a forma de um conselho desinteressado. O verbo “devorou” (frass [verbo de língua alemã], do verbo “comer” destinado aos animais) assinala um acontecimento esperado num lugar inesperado, e assume sua força no momento em que alcança uma nova dimensão que parecia faltar ao texto.
O que Kafka diz nessa micronarrativa? Diz, entre outras coisas, que a última saída da razão leva à ruína. Ou seja: que todos os esforços para superar o medo e a derrocada significam apenas gradações da falta de liberdade objetiva do mundo. Para o rato não existe escolha, ou melhor: essa escolha só pode se dar entre as alternativas de submeter-se à violência da ratoeira ou à violência do gato. 
Nas Conversações com Kafka, de Gustav Janouch, o poeta de Praga afirma, a certa altura, o seguinte: “Existe muita esperança, mas não para nós”.
Era esse o teor, a base, da sua dialética negativa ─ e não há como discordar da coerência do humor negro contido nessa fábula.
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BIBLIOGRAFIA

KAFKA, Franz. Essencial Franz Kafka. Seleção, introdução e tradução de Modesto Carone. S. Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011.

Morte sob censura — uma denúncia poética

MORTE E VIDA SEVERINA
(Fragmento)
João Cabral de Melo Neto

[SEVERINO] ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO

— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

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Eis aí os versos, dos mais famosos, de Morte e vida severina. Neles a realidade estabelecida parece contrapor-se ao desejo de um homem, aqui representante dos ideais de todos os trabalhadores, que só em morte alcançam a realização de parte de alguma coisa desejada, demonstrando esse trecho do poema, antes de mais nada, uma ironia ácida que revela as injustiças sociais.
Tal homem desejou ver, em vida — assim sugerem tais versos —, a terra igualmente dividida entre todos. Como já fora escrito, a realização de parte do desejo, resultado, aliás, de toda uma luta, se dá em morte, evidenciada já nos primeiros versos — “é a conta menor/ que tiraste em vida”. Deve ele contentar-se com a conquista de ter realizado parte do desejo; deve ele (embora os mortos não tenham o costume de falar…) calar-se: “mas a terra dada/ não se abre a boca”. Ao morto, portanto, não é reconhecido o direito de protestar: a cova é grande demais para abrigar pouca carne, e isso é suficiente para contentá-lo.
Denuncia o trecho deste grande poema o estado de coisas em que se encontram os trabalhadores explorados pelo sistema de latifúndio — sistema em que não se exige tanto investimento, pois a intenção maior dos latifundiários é assegurar a propriedade. Daí a ironia feroz, um recado para muitos, em um ritmo do mais alto grau de sensibilidade humana que só a grande poesia pode oferecer.

O testemunho de um poeta em tempos sombrios (I)

Bertolt Brecht
POEMAS DE BERTOLT BRECHT
(Tradução de Paulo César de Souza)

SOBRE A ESTERILIDADE

A árvore que não dá frutos
É xingada de estéril. Quem
Examina o solo?

O galho que quebra
É xingado de podre, mas
Não havia neve sobre ele?

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AOS QUE VÃO NASCER 
[1]

É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?

Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.)

As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d'água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.

* * * * * * * 
“O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera./ O tempo pobre, o poeta pobre/ fundem-se no mesmo impasse.” — a angústia de Carlos Drummond (exposta aqui nos versos de “A flor e a náusea”, do livro A rosa do povo) está em viver os tempos sombrios do século XX. Não há como o poeta deixar de ser político, nem de elucidar, em sua poética, a pobreza das leis de convivência entre os homens. Abre ele, portanto, mão da beleza — que emana da organização das puras palavras — para testemunhar a História.
Bertolt Brecht e o tempo pobre também se fundem no mesmo impasse. O poema “Sobre a esterilidade” revela, em linguagem alegórica (alegoria: dizer uma coisa referindo-se a outra), os tempos sombrios por ele vivenciados. Assim, o talento do poeta parece não sobreviver à opressão; a neve e o solo infértil (imagens da opressão) não criam condições de a árvore (cujas partes ecoam a imagem da poesia) ser frutífera (imagem da beleza). Há, porém, muitos ignorantes de toda essa realidade (no ato de xingar), que não compreendem o movimento histórico por eles vivido.
O poema “Aos que vão nascer [1]”, por sua vez, já usa de uma linguagem direta; ecoa o sentido do poema anterior. O eu lírico fala da consciência de ser quase um crime cantar um mundo belo (“Falar de árvores é quase um crime/ Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?”). Não pode ele distanciar-se dos grandes problemas, ainda que deseje estar afastado de tudo que não inspira sabedoria.
Mas há momentos que exigem participação daqueles que têm o poder de conscientizar; momentos que obrigam o poeta a não se calar em tempos sombrios, denunciados em linguagem de não transcendência — embora linguagem desenhando, em testemunho poético-testamental para as gerações futuras, alguma esperança de união e compreensão entre os homens (“Mas vocês, quando chegar o momento/ Do homem ser parceiro do homem/ Pensem em nós/ Com simpatia.” — versos de “Aos que vão nascer” [3]).

Sem Comentários (Segunda Edição)



UMA PIRUETA, DUAS PIRUETAS. BRAVO, BRAVO!
Lucas Limberti

O circo chegou.
Explode alegria, corre a criança, a cidade em polvorosa ouve o desfile:
– Atenção comunidade chegou o maior espetáculo da terra!!
Saltos, mágicas e palhaçadas.
O povo sorri com o coração cheio de vida vendo o desfile. Estouram foguetes, sobem balões, passam elefantes e mulheres barbadas. Na frente de todos está ele, o grande palhaço, o malandro inocente, o triste maquiado de alegria.
Alvoroçados, todos correram para as bilheterias, lotaram o espetáculo, compraram pipocas doces e salgadas e, até o fim do espetáculo, esqueceram-se da dor de ser o que eram.
Passou a temporada. A magia do circo é um sopro. Quem viu viu, quem não viu que junte seus pacotes e corra atrás da trupe.
O choro da criança alarmou, mas aos poucos cessou.
Neste farfalhar de emoções, esqueceram de avisar o palhaço da partida. Com a lona ainda montada ele foi, como deveria ser, pra sina de sua cena. Sorriu melancólico.
A maquiagem do palhaço só vale no palco; sentado no camarim ele se despede da tristeza. Afasta-se do pó e empunha seu violino para cena de seu dom e de seu tom. Mal sabe ele que hoje a plateia não vem. O circo fechou, a trupe se arrancou. E mesmo assim o palhaço apresentou-se como se aquela fosse a última vez que pisasse um picadeiro.
Após o espetáculo, sem palmas, sem risos, na companhia dos grilos o palhaço sacou um revólver da cartola colorida. Empunhou contra o centro de seu pensamento.
Disparou. Sem a magia do aplauso o místico som do disparo explodiu sua alegria.
O circo se foi.